Pouso Alegre, na década de 70/80, era uma daquelas cidades do interior de Minas onde o tempo parecia andar devagar e as histórias se entrelaçavam como as ruas de paralelepípedo. Meu sogro, o Sr. Ferdinando, era mais que um farmacêutico, quando médicos eram raros e o farmacêutico era, muitas vezes, a salvação. “Seu” Ferdinando com seu jaleco branco impecável, cuidava de tudo: dor de barriga, pressão alta, até injeção na veia, sempre com bom humor e um sorriso paciente. Era o tipo de lugar onde havia seringas fervidas na água e remédios meticulosamente pesados na balança; misturando-se ao falatório das conversas cotidianas.
Certa tarde abafada, a porta rangeu e entrou um sujeito que parecia ter saído direto de um filme de comédia rural. Cambaleante, com o cigarro pendurado no canto da boca e os olhos vidrados de quem havia exagerado na cachaça, ele se apoiou no balcão e murmurou: “Ô Dr Ferdinandi”, me dá um remedinho que esta cachaça tá me matando”. O Sr. Ferdinando, acostumado com essas visitas inesperadas, não piscou. Ele examinou o homem com um olhar experiente – daqueles que veem além da superfície – e diagnosticou o óbvio: desidratação e um fígado pedindo socorro. “Vamos de glicose e soro na veia “, disse ele, calmamente, guiando o cliente para a salinha dos fundos. Com a precisão de quem já havia feito isso mil vezes, o Sr. Ferdinando limpou o braço do homem com álcool e algodão. A antissepsia era sagrada, mesmo em dias quentes como aquele. Ele descartou o material usado em um balde ao lado, sem imaginar o que viria a seguir. O detalhe é que o tal balde — veja só — tinha acabado de receber um cuspe do próprio paciente, distraído entre um trago e outro. O bebum, ainda com o cigarro aceso, interrompeu o procedimento para dar uma tragada final. “Espera aí, doutor”, resmungou, e jogou a bituca no balde. Num instante, o álcool residual pegou fogo! Uma labareda impressionante, subiu como um sinal de alerta, iluminando o rosto surpreso de todos.
O homem pulou para trás, os olhos arregalados, e soltou um grito que ecoou pela farmácia: “Ô loco, não me venderam pinga não! Foi “arco” puro!”. A farmácia foi só gargalhada. Os clientes na espera explodiram em risos, e até o bebum acabou rindo de si mesmo, enquanto recebia o soro que o faria esquecer a “pinga falsa”. A inocência da cena era de cair o queixo: ali estava um homem que confundia o álcool do algodão com o álcool presente na sua saliva, em uma simplicidade que desarmava qualquer julgamento.
Essa história, ouvi do próprio Sr. Ferdinando em uma de nossas conversas à mesa de nosso almoço de domingo, e me lembra como a medicina – ou o que quer que fosse a farmácia dele na época – vai além de agulhas e frascos. É sobre gente, equívocos e a capacidade de rir das próprias trapalhadas. No mundo da ortopedia, onde lido com ossos partidos e dores crônicas, vejo ecos disso: pacientes que chegam assustados, mas saem com um sorriso ao entenderem o simples. Quem diria que uma bituca de cigarro poderia ensinar tanto sobre simplicidade e leveza?
E você, leitor, já viveu um momento assim, onde um erro virou lição? Na próxima crônica, conto uma história de uma fratura que uniu uma família inteira. Fique ligado no drdelano.com.br!



